NICE TO MEET YOU, CARNIÇA

MARCÍLIO LUCAS
Professor de Ciências Socias da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

 

Ao se deparar com CARNIÇA, o que pensar que vem por aí? Melhor nem tentar adivinhar: Carniça vai te pegar despreparado de qualquer maneira. Neste trabalho,  permanece um traço marcante dos trabalhos de Danislau: a vivacidade ao absorver o eterno do transitório, o poético do histórico.  Seu foco na trivialidade mundana faz aparecer os lugares onde a história real é feita, antes de ser representada. Postos de gasolina, barracos mal arrumados, lanchonetes semiabandonadas, pátios de escola e as ruas da cidade. Eis os locais que Danislau costuma percorrer, eis a matéria prima que costuma deglutir, para nos fornecer um conjunto de imagens envolventes, por serem, ao mesmo tempo, claras e inebriantes.

Na audioficção agora lançada, as ruas, as calçadas e os viadutos são o locus privilegiado, são o locus de Carniça. E quem é Carniça? Carniça não toma banho, vive o torpor das drogas, ama a doce Doraluce e odeia Natanael. Por que? Porque Natanael não toma banho, vive o torpor das drogas e ama a doce Doraluce. O enfrentamento é inevitável. O bairro Santa Mônica é pequeno demais para dois jovens que são um só. No entanto, a trama não se encerra nesse triângulo desamoroso. Ismael, o pastor decaído e decadente, pretende salvar Carniça pela força da lembrança de seu nome de registro: “Vamo sair dessa, Luiz?”. Mas Carniça se mostra impassível. Está feliz com a nuvem de mosquito que o acompanha e seguro de sua escolha pela lama, num tempo-espaço sem alternativas. A proximidade à sujeira do solo dá a Carniça uma tranqüilidade comovente. “Não se preocupe, porque do chão eu não passo”, afirma nosso intrépido herói, com toda serenidade de quem não quer crescer na vida. Serenidade que beira a altivez, vide a postura insolente que adota ao abandonar sua ex-posa, Juliete. 

Serenidade que beira o deboche, quando Carniça exige que seu inimigo pague sua prestação do celular. 

Danislau nos apresenta a sujidade das ruas, mas não o faz por meio de uma apologia da escória. Ele não embarca na marginalidade convencional de simplesmente afirmar a “beleza do sujo”. O autor de “Carniça” é mais engenhoso e, a partir desse ambiente pesado, consegue nos brindar com imagens marcantes, revelando a sensibilidade de alguém para quem nada que é humano é estranho. Como bom “homem do mundo”, no sentido baudelairiano, Danislau é apaixonado pela compreensão sutil do mecanismo moral que nos rodeia. E, para tanto, em CARNIÇA, vale-se da estratégia perspicaz de fazer poesia mostrando a miséria do mundo pela ótica particular de seu protagonista. Machado de Assis teve a grande de sacada de apontar o ponto de vista de um defunto como privilegiado, pois a sua posição além-vida garante o desprendimento, a franqueza e o desdém necessários para por à vista a mediocridade e as vacilações humanas. Danislau provavelmente não discorda, mas nos oferece outro ponto de vista não menos estratégico: o do abjeto, o de Carniça, livre das hesitações geradas pelo medo de perder. Além disso, CARNIÇA revela que toda escolha tem o peso do rompimento. Escolher um caminho é abandonar outro. Assim, o “ex” ganha centralidade. Juliete é ex-posa de Carniça. Doraluce é ex-namorada de Natanael. Natanael – e também poderia ser Carniça – é ex-catequista da igreja, ex-coroinha do padre, ex-bailarino de funk, ex-baterista de samba e... ex-futuro-servente de pedreiro. Escolher entre alternativas é abandonar um ex, seja ele do presente ou do futuro. De qualquer forma, escolher é abandonar; escolher é excolher.

Essa teia entre liberdade, escolhas e seus limites é arrematada com o último personagem: Abílio Dias, o cantor da desgraça do mundo, com a risada mais gostosa da TV brasileira. Apresentando seu inebriado e inebriante programa de jornalismo-desgraça, Abílio nos traz um “você decide” sem possibilidade de escolhas. O noticiário psicodélico coroa o fim da desventura de Carniça, mostrando o peso das escolhas, mesmo quando não existem alternativas. “Câmera, dá pra pegar o mosquitinho desse homem? Mostra a nuvem de mosquito em cima da cabeça desse homem!”. Sensacionalismo? Jornalismo barato que se aproveita da desgraça alheia? Nada disso. Abílio se exime dessa crítica, pois ele não faz a notícia: “a notícia quem faz é esse mundo sujo e escandaloso que você habita”. Abílio não tem culpa e você, telespectador, não pode reclamar, porque o final... você decide!

Depois de tantas palavras, como definir sinteticamente este trabalho de danislau tb? É uma ópera marginal sobre um malandro dos tempos de explosão do crack, das neopentencostais e do jornalismo-desgraça. Por isso, Carniça não tem a elegância do malandro carioca dos 40’s, presente na ópera do Chico. E seu duelo com Natanael não tem o ar de luta do bem contra o mal, como no duelo entre João de Santo Cristo e Jeremias nos 70’s, na conhecida canção de Renato Russo. CARNIÇA é mais atual e, apesar de despretensioso, é mais abrangente, porque uma investigação mais cuidadosa pode mostrar que “carniça” somos nós e nosso mundo fedorento. Quem quiser saber mais, que investigue o Carniça: tampe o nariz com uma mão e meta o play com a outra.